sexta-feira, 6 de abril de 2007

O livro

A noite começava a acordar na cidade naquele nebuloso dia que eu jamais esquecerei. O sol mal beijara o asfalto quando a escuridão, ávida por espreguiçar-se, expulsava os últimos raios naturais de claridade da metrópole. Entrei no ônibus. Cansado. Ansioso. Confuso. Me senti apertado em meio as poucas pessoas que ocupavam os bancos. Parecia que o último lugar fora feito especialmente para mim.

Contemplava a assustadora paisagem distorcida pelos vidros da janela. O caos corria do lado de fora diante dos meus olhos, indiferente a mim. Uma parada. Meia-dúzia de pessoas embarcam. E o tempo retornou a correr. Retirei minha atenção do lado de fora e voltei-me para o interior. Reparei naqueles poucos cidadãos que nada tinham em comum, a não ser o destino. Ninguém se falava. Tão pouco se olhavam. No coletivo deserto, apenas esperávamos ele devorar o asfalto e nos vomitar no nosso ponto final. Nova parada. Desta vez, apenas um passageiro. Um ilustre desconhecido. Ou seria um desconhecido ilustre?

Tinha certeza de que aquele senhor de meia-idade que acabara de embarcar tinha algo familiar. Pressenti que o fato de sua viagem coincidir com a minha não foi obra do acaso. O homem retirou o dinheiro contado do bolso, pagou o alto preço de sua passagem ao cobrador e girou a catraca numa paz sobrenatural. Aparentava ser alguém bem-sucedido que, não sei por qual motivo, resolveu andar de ônibus naquele nublado começo de noite. Imaginei que fosse um projetista. Um grande arquiteto! Minhas especulações cessaram quando ele lançou um negro olhar para mim. Enquanto caminhava rumo à cadeira vazia ao meu lado e buscava no fundo dos meus olhos aquilo que nem eu conheço, percebi que conhecia aquele homem. Nunca havia visto sua fronte. Mas sabia que era conhecida.

Sua voz aveludada pediu licença para ocupar o assento livre ao meu lado. Concedi. Fui virar o rosto para continuar contemplando a cidade que nunca pára quando ele me chamou pelo nome. Assutei. Como alguém que nunca vira antes sabe meu nome? Seria um seqüestro? Uma piada? Ele repetiu, desta vez pronunciando também meu sobrenome. Hesitei. Perguntei quem ele era e de onde me conhecia. O velho limitou-se a mandar eu ficar tranqüilo. Imprimia nos lábios um sorriso paterno enquanto pegava alguma coisa na sua surrada pasta. Surpreendi-me quando vi um velho livro vindo voando em minha direção. Aquele empoeirado exemplar parecia ter sido redigido junto com a criação do universo. O senhor perguntou se eu estava curioso para folhear aquelas páginas amarelas. Pensei...

Ele rapidamente tirou a pesada obra das minhas mãos antes mesmo que eu pudesse tocá-la. Foi quando me dei conta de que sequer havia visto as dimensões daquilo que parecia um livro. Não sabia se era grande ou pequeno, pesado ou leve, grosso ou fino. A única certeza que tive foi a de que era um livro. Questionei o título e o autor. O homem se mostrou surpreso. Como alguém escreve a própria história e não a reconhece? Fiquei confuso! Aquela viagem estava parecendo um devaneio. A neblina começara a penetrar no ônibus; o sol já estava do outro lado do planeta e aquele senhor portava uma obra que era de minha autoria sem nunca ter passado pelas minhas mãos?

Me interessei pelo assunto. Comecei a desperdiçar toneladas de perguntas sobre o desconhecido. Não me respondeu nenhuma. Apenas quando indaguei sobre a origem do livro foi que ele libertou algumas respostas do cativeiro por ele criado. Não sabia mais se estava sonhando acordado ou dormindo em um sonho. Gostava, entretanto. Questionei enquanto pude, enquanto conseguia, enquanto tinha criatividade para formular novas hipóteses. Cada vez mais ficava evidente o título daquela obra, mas, não era humanamente possível acreditar naquilo. Quando parei, ele começou. Perguntou se podia falar, e pediu que não fosse interrompido. Seu curto discurso durou o tempo de algumas eternidades. Suas palavras foram tatuadas na minha alma. Não disse nenhuma letra a mais, nenhuma a menos das que transcrevo abaixo:

"Meu filho. Sei que ainda és jovem e tens muitas dúvidas nessa perversa cabeça inocente. Algumas peças não se encaixam no enigmático quebra-cabeça da vida. Parece que algumas faltam. Outras, sobram. Mas, se tu analisá-lo com cuidado, verás que cada uma tem o seu lugar. A grande arte é encontrar a posição que cada um deve ocupar. Não há uma certa ou errada. Há aquelas mais pertinentes e outras que não eram as esperadas. Tu podes ter sido desenhado para uma, mas, pensando bem, até que não ficas tão fora de contexto se estiver em outra. O retrato é dinâmico e quem constrói a imagem final somos nós mesmos. Este livro, que tu apenas a capa viste, é a tua posição. Desde o dia do teu nascimento até o momento do teu último suspiro, tudo o que se refere a ti está gravado nestas folhas de papel. Não deixei que consultasses o índice. Não permiti que sequer visse a espessura. Seria injusto escancarar o teu futuro a ti mesmo sem vossa autorização. Tal escolha certamente irá alterar o curso de tua jornada para todo o sempre. Tu lerás sobre tua família, teus filhos, teu trabalho. Verás até onde chegarás e quais locais nunca colocarás o pé. Descobrirás quais sonhos vão se concretizar e quais nunca deixarão de visitá-lo nas eternas noites de descanso. Penetrarás, enfim, em você mesmo. O final daquela festa, o esperado beijo, o pedido da mão dela em casamento, a lua-de-mel, o primeiro filho... Nada mais será segredo para ti! Viajarás ao teu 'eu' como nunca ninguém viajou. Tuas metas daqui para frente serão em vão. 'Esperança' será uma palavra que definitivamente sairá do teu vocabulário. O que tiver que ser, tu saberás. Tens agora duas escolhas. Uma delas será tomada. Cabe a ti conhecer toda a tua história ou esperar que o futuro a conte. Qual será o final deste livro?"

Não acreditei no que ouvi. Talvez nunca digira completamente o belo discurso do pacífico homem. Mas a decisão deveria ser tomada. O senhor levantou-se, ajeitou o paletó e deixou um cartão sobre o meu colo. Enquanto dirigia-se para apertar o botão, solicitando a parada, li o papel que dizia: "Tu tens até o próximo ponto...". Ele observava-me como um pai orgulhoso acompanha os primeiros passos de um filho. Precisava de uma resposta. Sim ou não? A pílula azul ou a vermelha? 1 ou 0? Sempre quis saber até onde posso chegar, se tudo o que estou fazendo valerá a pena. Mas, e se não? E se meu futuro for como o de qualquer pessoa; minha jornada for semelhante a de milhões de outros brasileiros? E se não vier a mulher perfeita, a casa na praia, o emprego dos sonhos?

O próximo ponto chegou e o senhor lançou um último olhar sobre mim. Decidi não me mover e sinalizei isso para ele. Meu gesto foi imediatamente decodificado. O homem sorriu, aprovando. Percebi que, no fundo, ele não queria que me encontrasse com meu futuro. Os sonhos são o combustível da alma. Sem esperança, eles nada mais são do que fábulas projetadas na tela de nossa mente durante as madrugadas da vida. Ele desceu, acenando discretamente para mim. Tenho certeza de que nunca mais verei o homem. Não em vida, pelo menos. As portas fecharam e a viagem prosseguiu. Me senti tonto, como se tivesse acabado de acordar. Levantei de um sonho real. Voltara de uma realidade virtual. No entanto, não me arrependo da decisão tomada. Quero ouvir do futuro, dia-a-dia, o que eu tenho reservado para mim mesmo. E se o velho estivesse blefando? Não duvido nada se o livro nada mais fosse do que um maço de alvas folhas virgens, esperando que eu escrevesse o meu próprio destino...