Reservei os últimos cinco dias para arrumar os meus aposentos. Dizem que nosso quarto é o reflexo da nossa cabeça. Concordo plenamente!Prometi à minha mãe que nas férias daria um jeito na bagunça. Era livro para todo lado, rascunhos pairando no ar, resumos dominando a paisagem, gavetas desordenadas... O cheiro do vestibular ainda impregnava o cômodo. Eu precisava gastar algum tempo organizando minhas coisas e decidi então fazer isso nas férias. Percebi que não me organizei apenas fisicamente, mas, também, mentalmente. Desfiz-me de coisas que me acompanhavam desde a primeira infância e resolvi jogar na garagem inúmeros objetos que tinham posição de destaque no meu quarto. Toneladas de papéis e livros do Ensino Médio agora dão lugar ao conhecimento que virá da faculdade. Gavetas ocupadas até a boca estão vazias, aguardando ansiosamente o que o novo mundo universitário vai mandar à elas. Entretanto, não foi isso o que mais chamou minha atenção nessa semana.
Encontrei diversas cartinhas soterradas que amigas me escreveram. Hoje, essas doces lembranças estão cada vez mais escassas, substituídas por impessoais "scraps" e, quando muito, por algum "testimonial" insípido e incolor. Cartas recentes e velhas, escritas por grandes amigas, que colocavam no papel algo em comum: o desejo que a amizade permanecesse. Algumas estavam partindo, outras, continuariam comigo. Havia aquelas ainda que apenas escreviam para registrar algum cumprimento. Em todas elas, expressões como "pra sempre", "nunca me esquecerei" e "jamais" eram freqüentes. Naquela época, acreditei. Hoje, leio com saudades...
A culpa não é delas. Também não é minha. O culpado é o tempo! Devemos pensar duas vezes antes de dizermos - e, principalmente, escrevermos - algo que envolva a eternidade. O calor de algumas emoções e momentos não raro nos constrangem a dizer frases que em breve tornar-se-ão mentiras. Períodos que fazem sentido em um contexto servem apenas para lembrar o quanto valeu a pena o passado no futuro. Vivi isso essa semana. As cores e os sons de um tempo remoto levantaram da cova e me visitaram. Sentir o cheiro de pessoas queridas que não vejo a tanto tempo. Tocar nas letras daquelas que ainda comigo convivem, mas já não tem o laço tão estreito. Ler uma frase e viver outra realidade. É muito saudoso! Só me faz acreditar cada vez menos nas pessoas...
Não sou pessimista. Acredito na verdadeira amizade. Sei que as cartas citadas foram escritas com muito amor, e as tenho guardadas até hoje com muito carinho - se resistiram ao lixo essa semana, é provável que nunca o conheçam. O que fica evidente é a real necessidade de se cultivar aquilo ou aqueles que queremos para sempre. Palavras jogadas em um pedaço de papel há seis anos queriam dizer muita coisa. Hoje, não passam de átomos de grafite descansando sobre um alvo leito. Nenhuma fogueira, por mais intensa que seja, permanece emanando calor se não for devidamente alimentada. Os relacionamentos, infelizmente, são muito mais complexos do que um simples fogareiro...
Terminei de ler as cartas e prossegui com a arrumação. Remanejei-as da gaveta para o fundo de uma caixa de difícil acesso, mas, que certamente as conservará por longas décadas. Elas não estão mais no meu quarto, mas ainda me pertencem e são guardadas com muito carinho e consideração. Não no lugar mais fácil de achá-las. Não na prateleira mais visível. Não na gaveta mais alta. No fundo de uma caixa, no fim da garagem. Não no lugar que merecem. Sim no lugar que chegaram. Dizem que nosso quarto é o reflexo da nossa cabeça. Concordo plenamente...

