Sento-me para escrever com muitas idéias e poucas palavras. São muitas opiniões, fotos, textos, panfletos e vozes que nos últimos 51 dias ecoaram na mídia e na universidade, desde que a reitoria da USP foi tomada. Confesso que não foi fácil descer do muro e escolher um lado da moeda. Ao mesmo tempo que todos têm razão, ninguém está completamente certo. Pra onde correr? Que causa abraçar? A temperatura do movimento subiu e desceu, enquanto que a cega sociedade, alheia ao que acontece dentro dos muros da Cidade Universitária, repudiou o movimento e acreditou, questionando pouco, naquilo que a imprensa divulgou. Seria um erro me calar neste momento. Calar quando tenho uma visão privilegiada do acontecimento. Calar quando tenho uma opinião. Calar quando a universidade em questão é a minha!
Já faz um bocado de tempo quando, pela primeira vez, um estudante, sozinho, entrou na nossa aula de cálculo alertando sobre os decretos do governador José Serra. Na época, ninguém levou fé, e acreditamos que aquilo nunca passaria de mais uma das inúmeras greves uspianas. Na verdade, ninguém levou a sério aquele amontoado de palavras publicadas no Diário Oficial, e o assunto acabou esquecido. Tenho saudades daquele dia...A primeira questão a esclarecer é o que são os decretos. O governador do Estado, José Serra, decretou no início do ano diversas medidas que atacam as universidades estaduais. Em resumo, Serra, impedido de criar novas secretarias, renomeou a de turismo para educação (medida essa inconstitucional), fragmentou o ensino em básico, técnico e superior, impediu que novas contratações fossem feitas, delegou à recém-criada Secretaria de Ensino Superior a definição de políticas e diretrizes universitárias e a definição de quais pesquisas devem ou não serem feitas e também obrigou a universidade
a solicitar a autorização do governo para remanejar verbas internamente. Particularmente, não consigo entender como algum universitário pode não ser contrário aos decretos. É evidente que eles ferem a autonomia universitária e comprometem a qualidade das faculdades, gerando um provável sucateamento do ensino superior como vemos hoje com o Fundamental e o Médio. Entretanto, os decretos constituíam apenas um tópico das 17 reivindicações que os estudantes faziam para desocupar a reitoria. E é pela grandeza adquirida pelos outros 16 motivos extremamente menores do que esse que eu condeno a ocupação. Alguns deles evidenciam que o movimento é composto por estudantes profissionais e que não estão preocupados com a universidade, mas, sim, com seu futuro político e sua moradia, alimentação e transporte gratuitos fornecidos pelo Estado. É o caso, por exemplo, da reivindicação nº 7 ou da nº 14 (veja aqui a pauta completa
).A brincadeira foi ficando séria, a imprensa foi cobrindo o evento cada vez maior e a idéia de sair da reitoria tornou-se cada vez menos cogitada pelos estudantes. Em um dos dias, houve festa com banda e DJ e até mesmo um show com Tom Zé aconteceu no local. Tudo pelo bem da universidade. Da universidade? Apesar da reitora ter se esforçado pela desocupação pacífica, os alunos mantiveram a greve até hoje, apenas sinalizando com a desocupação da reitoria. Formaturas, bolsas e até mesmo a FUVEST foram prejudicadas pelo movimento. Um movimento paradoxal, que luta pela universidade e, no entanto, é o primeiro a prejudicá-la. Será que foi uma luta realmente legítima, com os objetivos que eles realmente se vestem?
Enquanto verdadeiras batalhas ideológicas são travadas, com partidos políticos se camuflando entre os estudantes e alunos se escondendo sob escudos partidários, a imprensa, completamente perdida, assiste ao espetáculo e publica de forma confusa e incoerente o pouco que vê. É curioso observar como reportagens tão diferentes podem pertencer a um mesmo evento. Enquanto a Época visitou clandestinamente a ocupação e pintou um quadro de paz, felicidade, tranqüilidade e hamornia no prédio invadido, a Veja São Paulo publicou em sua capa aquilo que ela definiu como "Caos na USP". Nenhuma das duas está completamente certa. O cidadão desinformado acredita naquela que tem mais confiança ou na que condiz com sua opinião pessoal. Já o prevenido busca mais informações nas mais diversas fontes possíveis - e fica mais perdido ainda! O aluno da USP fica indignado. Bravo! Inconformado!!
Como que uma minoria da universidade pode gerar tanta polêmica na sociedade? Ultimamente, por volta de 50 pessoas passavam a noite na reitoria (alunos matriculados na USP: 80.589). Muitos dos adeptos ao movimento no início reconheceram que os limites foram ultrapassados e deixaram de ter atitudes infantis como a da ocupação. Continuam lutando sim pelos seus ideais. Mas conseguiram perceber que o extremo não é necessariamente a melhor solução.Hoje, após 51 dias de muita confusão, especulação, assembléias e propostas, finalmente a reitoria está sendo desocupada. Estudantes saem vestidos de palhaços, cantando músicas contra a ditadura e segurando faixas como a que diz "desocupamos a reitoria para
ocupar a USP". Apesar de ser completamente contrário a tudo que foi feito nesse período, não posso negar que houveram significativos avanços para a universidade. Os manifestantes realmente tiveram atitudes audaciosas. Mas, só por curiosidade: não seria mais fácil fazer primeiro o possível antes de tentar o impossível?
Um comentário:
Gostei muito do que escreveu... você escreve muito bem, sem exageros!
Sobre o assunto, acho até engraçado... Eu debati com o meu pai sobre o assunto por muitos dias. No começo - após ter lido o decreto e as considerações dos estudantes - eu apoiava a ocupação. Meu pai, era totalmente contra.
No fim, após tantas discussões, chegamos a algumas conclusões: eu e ele não estamos na USP, não somos testemunhas; não podemos confiar na mídia.
Beijos
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