sábado, 17 de fevereiro de 2007

Pra sempre?

Reservei os últimos cinco dias para arrumar os meus aposentos. Dizem que nosso quarto é o reflexo da nossa cabeça. Concordo plenamente!

Prometi à minha mãe que nas férias daria um jeito na bagunça. Era livro para todo lado, rascunhos pairando no ar, resumos dominando a paisagem, gavetas desordenadas... O cheiro do vestibular ainda impregnava o cômodo. Eu precisava gastar algum tempo organizando minhas coisas e decidi então fazer isso nas férias. Percebi que não me organizei apenas fisicamente, mas, também, mentalmente. Desfiz-me de coisas que me acompanhavam desde a primeira infância e resolvi jogar na garagem inúmeros objetos que tinham posição de destaque no meu quarto. Toneladas de papéis e livros do Ensino Médio agora dão lugar ao conhecimento que virá da faculdade. Gavetas ocupadas até a boca estão vazias, aguardando ansiosamente o que o novo mundo universitário vai mandar à elas. Entretanto, não foi isso o que mais chamou minha atenção nessa semana.

Encontrei diversas cartinhas soterradas que amigas me escreveram. Hoje, essas doces lembranças estão cada vez mais escassas, substituídas por impessoais "scraps" e, quando muito, por algum "testimonial" insípido e incolor. Cartas recentes e velhas, escritas por grandes amigas, que colocavam no papel algo em comum: o desejo que a amizade permanecesse. Algumas estavam partindo, outras, continuariam comigo. Havia aquelas ainda que apenas escreviam para registrar algum cumprimento. Em todas elas, expressões como "pra sempre", "nunca me esquecerei" e "jamais" eram freqüentes. Naquela época, acreditei. Hoje, leio com saudades...

A culpa não é delas. Também não é minha. O culpado é o tempo! Devemos pensar duas vezes antes de dizermos - e, principalmente, escrevermos - algo que envolva a eternidade. O calor de algumas emoções e momentos não raro nos constrangem a dizer frases que em breve tornar-se-ão mentiras. Períodos que fazem sentido em um contexto servem apenas para lembrar o quanto valeu a pena o passado no futuro. Vivi isso essa semana. As cores e os sons de um tempo remoto levantaram da cova e me visitaram. Sentir o cheiro de pessoas queridas que não vejo a tanto tempo. Tocar nas letras daquelas que ainda comigo convivem, mas já não tem o laço tão estreito. Ler uma frase e viver outra realidade. É muito saudoso! Só me faz acreditar cada vez menos nas pessoas...

Não sou pessimista. Acredito na verdadeira amizade. Sei que as cartas citadas foram escritas com muito amor, e as tenho guardadas até hoje com muito carinho - se resistiram ao lixo essa semana, é provável que nunca o conheçam. O que fica evidente é a real necessidade de se cultivar aquilo ou aqueles que queremos para sempre. Palavras jogadas em um pedaço de papel há seis anos queriam dizer muita coisa. Hoje, não passam de átomos de grafite descansando sobre um alvo leito. Nenhuma fogueira, por mais intensa que seja, permanece emanando calor se não for devidamente alimentada. Os relacionamentos, infelizmente, são muito mais complexos do que um simples fogareiro...

Terminei de ler as cartas e prossegui com a arrumação. Remanejei-as da gaveta para o fundo de uma caixa de difícil acesso, mas, que certamente as conservará por longas décadas. Elas não estão mais no meu quarto, mas ainda me pertencem e são guardadas com muito carinho e consideração. Não no lugar mais fácil de achá-las. Não na prateleira mais visível. Não na gaveta mais alta. No fundo de uma caixa, no fim da garagem. Não no lugar que merecem. Sim no lugar que chegaram. Dizem que nosso quarto é o reflexo da nossa cabeça. Concordo plenamente...

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Recompensa



Foi divulgada há poucos minutos a última lista dos grandes vestibulares do 1º semestre de 2007. Graças a DEUS, depois de um longo e tenebroso ano, a coroação foi impecável: 100% de aproveitamento!

Tudo começou na chuvosa manhã do dia 6 de março de 2006. Mal sabia eu naquela ocasião o que teria de enfrentar nos próximos 318 dias até que as tão esperadas férias chegassem novamente, em 17 de janeiro de 2007. Foram mais de 1.680 horas de estudos, que dilaceraram 17 sábados e 10 domingos do meu nada saudoso 2006. Em ano de Copa do Mundo e Eleição, manter a concentração em tempo integral, não podendo escapar dos resumos e exercícios nem mesmo nas "férias" de julho foi uma tarefa particularmente difícil. Aulas de manhã e de tarde, análise das obras aos sábados, quintas e sextas, revisões, simulados objetivos, dissertativos, especiais, laboratórios de redação, aulas interdisciplinares... Tudo isso sem contar os intermináveis exercícios dos "intocáveis" (que foram bastante "tocáveis") e das apostilas de revisão (I, II, final, especial...) para que aprendêssemos aquilo que nos seria cobrado pelos diversos examinadores.

Não bastasse a estressante maratona de estudos sugar todas nossas energias, as quase 25 provas, distribuídas em 19 dias de exames, consumiram os últimos neurônios e devoraram as poucas energias restantes até então. Confesso que não foram poucas as vezes que pensei em jogar tudo para o alto. Mas, esse ano aprendi com o "mestre" Caeiro a desaprender. Desaprendi o significado da palavra "desistir". E aprendi que se queremos alguma coisa, devemos lutar por ela.
Do céu, só cai água, e mesmo assim, poluída... Se algo parece impossível, durma bem uma noite a fim de acordar disposto na manhã seguinte, tome um banho gelado e analise novamente a situação. Às vezes, calma, paciência, persistência e muita - MUITA - força de vontade podem ser a peça certa na ocasião perfeita para dar o xeque-mate no adversário.

Não acredito até agora no que consegui. Talvez nunca digira completamente essa idéia. Furto Fernando Pessoa para me expressar, com significativa modificação: "Nunca fui nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. Mas com DEUS, tenho em mim todos os sonhos do mundo..."



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Vergonha

Acredito que não sou o único que tenho vergonha de ser brasileiro.

Há alguns dias tive a oportunidade de ir até o SUS para buscar duas caixas de remédios. Ainda era Janeiro, portanto, a cidade (bem como o posto) estava vazia. Após longos minutos gastos no trânsito até lá chegar, tivemos que retirar uma senha e aguardar mais de uma hora sentados até sermos atendidos. O leitor desinformado poderia me chamar de exigente. Já aquele que realmente se interessa pelo país e está ligado no mundo em que vive concordará que isso é uma vergonha.

O primeiro ponto que deve ficar bem explícito é que não há nenhuma generosidade, cordialidade ou benevolência por parte do governo em "doar" as caixinhas para cidadãos como eu. Tal atitude é dever do Estado, que rouba meus pais todos os meses prometendo saúde, educação, emprego e mais um mundo de maravilhas sem nada dar em troca. A segunda questão é a falta de mais estabelecimentos como esse pela cidade. Tais postos deveriam ser tão freqüentes quanto as farmácias, encontradas a cada duas ou três esquinas. Vi naquele lugar brasileiros que penaram para chegar até ali, com um exausto sorriso nos lábios porque alguém estava "dando" a eles o que precisavam. Mal sabem eles que, se não houvesse a pesada carga tributária, teriam condições de comprar as medicações com seus próprios salários. Não seriam obrigados a atravessar a cidade e nem a perder horas de trabalho (uma vez que o posto funciona apenas em horário comercial) a fim de conseguirem aquilo que só está ali graças às contribuições deles.

É difícil apontar um responsável. Em um país onde ninguém tem peito de assumir uma decisão, mas, todos se escondem atrás de uma enorme burocracia, jogando sempre a palavra final para o próximo, os culpados são muitos. Quem diz isso não sou eu: é a mídia. Por aqui, um em cada sete deputados é processado ou investigado por crime. Fraudes em vestibulares estão sendo investigadas, visto que foi descoberto que um deputado, visando beneficiar sua filha, pagou um professor para elaborar a prova e entregar as respostas a ela. Outro afirmou: "A imagem da gente fica suja, mas eu tenho um histórico limpo. Não tenho o nome envolvido em sanguessugas e em casos de mensaleiros. Quem tem vergonha fica com vergonha. Eu fico com vergonha.". Frases patéticas como essa são proferidas por aqueles que hoje, dia 1º/02, tomam posse e hão de governar nossa nação. Dos 513 deputados eleitos, 74 respondem a processo na Justiça Federal, mas, mesmo assim, estão assumindo seus cargos.

Estou enganado. Não tenho motivos para ter vergonha de ser brasileiro. O que me envergonha é ser governado por pessoas como essas, que enganam o povo com pomposos discursos e enquanto isso divertem-se às custas dos enganados. E fica a pergunta: é melhor saber que estou sendo feito de idiota sem nada poder fazer para mudar a situação ou cegamente acreditar que alguém está com dó de nós e por isso colocou um único posto de saúde para atender a cidade de São Paulo inteira que, com alguns banquinhos estofados, acaricia os cegos olhos da população brasileira?